Felipe Jucá

Paz e bem!

Textos

                Cora Coralina a mulher

          Abro os jornais e leio uma interessante notícia sobre Cora Coralina. Tenho por essa iluminada poetisa e excepcional cronista uma admiração ilimitada. 
          A sua prosa e o seus verso são de uma delicadeza incomparável. Na prosa, dois de seus livros - Estórias da Casa Velha da Ponte
O Tesouro da Casa Velha - confirmam o que estou dizendo.
          E na poesia, ela tem versos como estes, abrindo o poema
O cântico da terra:
                  
               "Eu sou a terra, eu sou a vida.
               Do meu barro primeiro veio o homem.
               De mim veio a mulher e veio o amor.
               Vem o fruto e vem a flor."

          Não foi por acaso que Carlos Drummond de Andrade, criterioso e exigente nas suas críticas, encantado com sua poesia, escreveu o seguinte: "Dá alegria na gente saber que existe bem no coração do Brasil um ser chamado Cora Coralina."
          No coração do Brasil porque Cora Coralina nasceu na Vila Boa de Goiás, no dia 20 de julho de 1889. Na pia batismal, recebeu o nome de Ana; no Cartório, Ana Lins dos Guimarães Peixoto Bretas. 
          Viveu grande parte de sua vida entre Vila Boa de Goiás e São Paulo. E morreu na cidade de Goiânia, no dia 9 de abril de 1985. Perto, portanto, de completar 96 anos de idade.
          Seus biógrafos são unânimes em lhe desenhar o perfil como o de uma mulher forte, decidida, muito inteligente, e, acima de tudo, otimista.
          É sua esta frase: " Nunca escreverei uma palavra para lamentar a vida. O presente é incomparavelmente  melhor do que o passado, assim como também o é o futuro em relação ao presente."
          Uma mulher forte. Mostrou essa sua qualidade, ainda muito novinha, quando enfrentou seus pais, que não a queriam amiga dos livros. 
          Porque gostava de ler, por eles, disse ela, "fui considerada... uma criança desajustada, aquilo que os franceses chama de détraqué". 
          Viveu num tempo em que as mulheres vinham a mundo para falar de crianças, de criadas e do fogãozinho a lenha. Nada de mulher "intelectualizada".
          Mulher decidida. Mostrou essa sua qualidade quando resolveu criar o seu pseudônimo. 
          Deixou de ser Ana para ser Cora Coralina. E disse por que assim agia: " Em Goiás existem muitas Anas por causa da padroeira da cidade, e eu não queria ter xará. Cora vem de coração, e coralina é a cor vermelha."
          Casou e enviuvou. Mas confessou, publicamente, que não fora feliz no casamento, posto que, tivera que enfrentar o ciúme exagerado do seu companheiro.
          Vejam o seu desabafo: "Ele tinha a tara do ciúme, de dia e de noite. Não posso falar bem do meu marido. Era muito culto, e eu, mais inteligente. Ele não perdoava isso. Não pude me apegar a ele porque não me deu nehuma oportunidade para isso.!
           Ele, assim suponho, sentia por ela o que os estudiosos da alma humana costumam chamar de "ciúme doentio".
          Nesse casos, se a mulher é inteligente, o homem. quase sempre. sai perdendo... É o que me diz a experiência acumulada, depois de advogar, por muitos anos, nas Varas de Família. 
          Sempre na defesa da mulher, é da Coralina o lindo poema Mulher da vida.  Ela lamenta a vida atribulada de nossas prostitutas e a humilhação que lhe é imposta por pela sociedade elitisada.
 
              "Mulher da vida, minha irmã.
              Pisadas, espezinhadas e exploradas.
              Ignoradas da Lei, da Justiça e do Direito."

          Nas últimas décadas - é fato inconteste - nossas damas, pela sua cultura, vem galgando posições de destaque e de alto poder de decisão, no Estado organizado. 
          Mas elas só serão definitivamente vitoriosas quando seguirem, a risca, este conselho de Cora Coralina: "As mulheres serão fortes no dia em que organizarem seu partido político, quando deixarem de fazer campanha pelo marido, pelo irmão, pelo namorado ou pelo amigo." Se isso algum dia ocorrer, os homens que se cuidem.
          Mas para atravessar ilesa o mal tempo em que as mulheres intelectualizadas eram, lamentavelmente, discriminas, Cora Coralina não se afastou das lides domésticas.
          É o que leio nas gazetas que circulam hoje dando conta das guloseimas que a notável versista fazia, com a publicação do livro Cora Coralina doceira e poeta.
          Doces, bolos e salgadinhos fabricados por mãos que, a rigor, não haviam nascido para fazer quitutes. Mas para alimentar os amantes da boa literatura, com poemas e crônicas que o tempo jamais conseguirá levá-los ao esquecimento.
          
                 

Felipe Jucá


Publicado em 23/11/2009 às 14h11


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