Felipe Jucá

Paz e bem!

Textos

            Humberto de Campos 
                 no carnaval

        Vejam o que ele disse, antes de pôr o ponto final na sua crônica intitulada Os velhos e o direito ao amor
"Quando um velho ama, é Deus e não o Diabo, que acende a fogueira no seu coração.
        Glória, pois, aos velhos que amam! E glória às mulheres moças que amam os velhos, preferindo ao leite do coco verde o azeite do coco maduro!..."

        Humberto de Campos, falecido em 5 de dezembro de 1934, é, e não há quem diga o contrário, um dos maiores cronistas brasileiros.
        Sempre me declarei um apaixonado pela sua obra.
        Nas estantes que reservei para acolher meus cronistas preferidos, ele aparece na companhia de Drummond, Bandeira, Machado de Assis, Coelho Neto, José de Alencar e Rachel de Queiroz, entre outros. 
        Tenho quase todos os seus livros.
        Adquiri-os, na sua quase totalidade, já faz algumas décadas, junto à W.M. Jacson Inc - Editores. A Editora Jacson, que acredito não tenha sobrevivido ao tempo. Outros, busquei-os nos sebos de Salvador, do Rio e de São Paulo.
        Uma encadernação aproximando-se da perfeição assegurou-lhes a integridade física. Volvidos tantos anos, e a coleção está em excelente estado!        
        Humberto de Campos conquistou a simpatia e o respeito dos amantes da boa leitura porque usou, nos seus textos, uma linguagem simples e humana.
        Ele dispunha de um vocabulário preciso e rigorosamente apropriado para cada frase que entregava aos seus leitores. Não agredia a gramática. 
        Embora, como disse, escrevesse com simplicidade, suas páginas evidenciavam a robusta cultura do seu autor, que não tinha estudos.
        Nada de textos rebuscados. Por isso, ninguém seria capaz de ler uma única crônica sua e sair por aí dizendo que nada entendera. 
        Prevaleciam, nos seus escritos, o perfil e o coração de um homem de sentimentos nobres. E isso ela sabia transmitir, através de sua habilidosa, escorreita e respeitada caneta.
      Seu valor intelectual, comprovado sobejamente pela sua extensa obra, garantiu-lhe uma cadeira na Academia Brasileira de Letras, onde foi recebido no dia 8 de maio de 1929, para ocupar a cadeira n. 20, que tem como patrono Joaquim Manoel de Macedo.

        Humberto, ao lado de Rachel de Queiroz, me fez companhia na minha mocidade nordestina. Companhia que permanece firme, quando chego ao glorioso patamar dos meus mais de  setenta... bem vividos.  
        Vira e volta, e lá estou eu sendo flagrado relendo um livro do Humberto de Campos, pela terceira ou quarta vez.
        E fazendo um esforço dos diabos para decorar pelo menos uma pequena parte de suas formidáveis crônicas.
        Alguns desses livros estão na minha mesinha de cabeceira, que mais parece uma biblioteca, já me disseram isto. 
        Estão lá Sombras que sofrem, Um sonho de pobre, Carvalhos e roseira, Reminiscências, Contrastes, etc., etc.

        Escrevi, repetidas vezes, aqui e em outros lugares que me deixaram entrar, que as Editoras estavam cometendo uma infame injustiça, não reeditando os livros do Humberto de Campos. 
        E, aos berros, pedia que, por favor, trouxessem para as livrarias a obra desse belo escritor maranhense. 
        Nos meus apelos, enfatizava que a mocidade precisava conhecer um dos melhores cronistas deste país, vez por outra tomado de assalto por escritores de incontestável fragilidade literária. 
       Mas sempre deixava bem claro que meu grito em favor do Conselheiro XX dificilmente seria escutado, eu, um insignificante escriba cearense.
       Pois não é que, agora, a
Global Editora e Distribuidora Ltda acaba de publicar as melhores crônicas do autor de À sombra das tamarineiras
        Diz a nota da gazeta, anunciando o lançamento: " Autor de linguagem simples e acessível, Humberto de Campos escreveu verdadeiros best-sellers  para a sua época. E a coleção Melhores Crônicas reúne uma seleção do gênero em que mais se destacou."
        Portanto, quem não foi cair na folia, e desejar passar os três dias de carnaval entregue a uma boa leitura, corra, e adquira o livro do Humberto. 
        São 352 páginas que farão qualquer um esquecer as cuícas e os tamborins.
        E não se lembrar que, em Salvador, desfilam blocos e bandas carnavalescos com nomes estranhos, como um tal de, com licença da palavra, Pisirico. Arre!   


Felipe Jucá


Publicado em 07/02/2010 às 15h00


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