Felipe Jucá

Paz e bem!

Textos


                A lição do Dalai-Lama

          Estava num restaurante, quando a risada descontrolada de um sujeito engravatado veio ferir meus delicados tímpanos.
          Na sua mesa, vizinha à minha, ele tomava coca-cola zero. Não estava, por conseguinte, sob o efeito de qualquer bebida alcoólica; pelo menos aparentemente.
          E no recinto não havia qualquer tipo de advertência como aquela, muito manjada, que diz: "Sorria! Você está sendo filmado."
          Algumas doses de uísque ou algumas taças de vinho até poderiam, não digo justificar, mas explicar sua exagerada euforia.
          Tive vontade de censurá-lo, pedindo-lhe que se contivesse nas suas demonstrações de alegria.
          Correria, porém, o risco de criar um barraco; ou ouvir dele o que os malcriados  ou mal-educados guardam, com prazer, na ponta de suas línguas viperinas: desaforo.
          Limitei-me, então, a repreendê-lo com um demorado olhar que, às vezes, dizem mais do que meia-dúzia de palavras.
          Ele captou meu olhar de reprovação; e me pareceu não ter gostado. Azar dele. Mas ele precisava entender que é fundamental saber sorrir.

                   ***   ***

          De fato, não há coisa mais cativante e eloquente do que um sorriso.
          E não é só, como se diz por aí, o sorriso de uma criança que transmite ternura e convence. O sorriso de um adulto, se bem dosado e aberto no momento certo, tem, também, o seu valor e indiscutível significado.
          É preciso - deixe-me dar uma de gato-mestre - não banalizar o sorriso. Isso não quer dizer que devamos economizá-lo.
          Sorrir - e sorrir muito - é sempre muito bom, apesar de estarmos vivendo um tempo de pessoas carrancudas; ou de sorrisos artificiais.
          O sorriso será légitimo, irretocável,  se espontâneo e não estou aqui a dizer nenhuma novidade.
          Um sorriso espontâneo pode - a prática tem sobejamente demonstrado - desarmar carrancas impenetráveis ou abrandar corações empedernidos.

                   ***   ***

          Atrevo-me a escrever estas mal-traçadas depois de ler uma matéria, num jornal de Salvador, falando sobre o sorriso do Dalai-Lama, para os seus seguidores, o símbolo da felicidade.
          E esse seu estado de felicidade ele deixa transparecer no seu inconfundível e permanente sorriso.
          Diz a matéria, que uma jornalista lhe fez esta pergunta: " Por que o senhor está sempre sorrindo?"
          Você já viu, meu dileto leitor, uma foto do Dalai-Lama com o rosto carregado?
          Ele justificou, respondendo que ver o outro, um desconhecido, "como se estivesse reencontrando um velho amigo".
          E ainda completou, afirmando que, para ele, "um desconhecido é outro membro da família humana que encontro".
          Recorde-se, que já não é fácil abrir um sorriso para um conhecido quanto mais para um desconhecido.

                  ***   ***

          Nos meus momentos de reflexão, não raro lamento que a gente não tenha  imagens do Cristo e dos nossos santos  esboçando um leve sorriso.
          Todos aparecem nos altares e fora deles de caras fechadas! Já deve o leitor ter observado isso.
          Por que não um Francisco de Assis sorridente? Nem Giotto nos deixou um Poverello risonho.
          Por que não uma Nossa Senhora, cheia de doçura, sorrindo pros seus devotos?
          Quando estive na Grécia, procurei, nas igrejas Ortodoxas, belíssimos templos bizantinos, um santo Ícone com um sorriso nos lábios. Não encontrei um sequer. Paciência!
          No tempo da Quaresma, mal não faz que, seguindo a lição do lider espiritual do Tibete, a gente busque cultivar e valorizar o sorriso.
         Será uma maneira de tornar este mundo velho mais alegre, mais fraterno, menos sisudo...
 


Felipe Jucá


Publicado em 23/02/2010 às 17h08


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